A Ardalambion esteve fora do ar por meses, e voltou parcialmente no dia 24. O layout está bem básico, mas agora você pelo menos pode baixar o Curso de Quenya e o Curso de Sindarin por lá.
Omentielva Cantëa pede seus ensaios
A Omentielva, talvez a única convenção global de malucos como nós que estudam élfico, terá sua quarta edição (Cantëa é “quarta” em Quenya) de 11 a 14 de agosto de 2011 em Valência, na Espanha, como eu já havia noticiado.
Em 8 de julho passado o Secretário da Omentielva Anders Stenström mandou um pedido que todos os interessados em ter seu ensaio incluso nos procedimentos o envie para beregond@omentielva.com, da seguinte forma:
Para propor um ensaio, envie o resumo para Beregond, Anders Stenström, o Secretário da Omentielva. Não faça o resumo muito curto; umas duas centenas de palavras são normalmente necessárias (mas é claro isso depende da complexidade do seu assunto). Você não precisa ter as suas conclusões já na proposta, mas delineie como você pretende alcançá-las. Anexe uma pequena apresentação de você mesmo (quatro linhas ou menos). Especifique quais fontes você vai utilizar, e se você vai discutir algum estudo prévio.
Nós esperamos que a apresentação do ensaio leve 40 minutos. Mas nós temos o objetivo de um programa contínuo, e portanto nós podemos acomodar ensaios de durações variadas. Por favor especifique o tempo que você pretende usar, e quaisquer equipamentos técnicos que você precise. Esteja preparado para questões e discussão no fim de sua apresentação.
Copyright e considerações similares podem ser aplicadas. Para publicação, você deve prover uma cópia do seu ensaio na qual todas as citações são marcadas ou a fonte é dada.
Se você quer enviar um ensaio, mas não pode ir à conferência, você pode enviar o ensaio para ser lido e discutido. No caso posterior, diga quaisquer direções ou preferências que você pode ter para a apresentação.
Quem quiser dar uma olhada em artigos de Omentielvar passadas, clique aqui.
Genitivo de -öa
Um curioso furo no nosso conhecimento de Quenya: como formamos o genitivo de palavras que terminam em -öa? Foi a pergunta do usuário “filmnoirkitty” da lista Elfling, no dia 17 de julho:
Se você quer dizer “os andares das casas” eu posso imaginar que seria algo como i talami coaron ou algo similar, mas como seria “o andar da casa”?
Você usaria outra palavra para “casa”? Reescreveria a sentença para evitar o problema? Existe um genitivo válido para coa? Retirar o -a e dobrar o -o não parece válido (có)…
A discussão é interessante de acompanhar, mas os resultados mais prováveis foram apresentados por David Salo desta forma: coa < kawa geraria provavelmente cuo. A ideia de Roman Rausch de utilizar cavo não funcionaria, pois -wo em kawo é similar a owo > uo. Uma situação parecida ocorre em tie < teʒe, onde -ee > ie.
Quais palavras se encaixariam nesse padrão? Segundo Salo “coa ‘casa’, foa ‘fôlego’, hoa ‘grande, largo’, hroa ‘corpo’, loa ‘ano’, loar ‘florescer dourado’, noa ‘ideia’ (possivelmente obsoleto), oa(r) ‘longe’, soa ‘sujeira’, toa ‘madeira (material)’. Também ëo “pessoa” < *ewô.” Note que toa é o que Salo considera uma forma normalizada de tavar das Etimologias se seguisse o padrão de evolução fonética apresentado pelas palavras pós-SdA.
Eu sugiro a leitura das duas mensagens de Salo, as 35827 e 35831 para mais detalhes.
Abordagem na tradução de nomes
O Roger A. Lucania me perguntou nos comentários de outro post qual é a minha metodologia para traduzir nomes para as línguas élficas. Como até o momento eu não escrevi sobre isso, achei que seria bom compartilhar com vocês.
A minha abordagem
A tradução de nomes não é, para mim ao menos, uma tarefa só de juntar palavras em um composto, pois a estética do nome é importante. Eu creio que o nome que eu mais me orgulho do resultado seria a tradução Sindarin de Ricardo, Thargon, pela estética tolkieniana (veja por exemplo Turgon e Fingon). Aglargon, a tradução para Rodrigo, não possui o mesmo impacto.
O primeiro passo para a tradução de um nome é buscar o significado. Isso não é feito em sites meia-boca como este aqui. Um estudo etimológico do nome é necessário, junto com uma lista de fontes confiáveis dos quais o site tirou a análise, para que eu aceite o site como uma fonte confiável. Eu não tenho problema com análises místicas de nomes, mas elas não nos servem. Uma análise séria é necessária para que tenhamos uma base sobre a qual trabalhar.
Quais sites eu recomendo? A Behind the Name e o Online Etymology Dictionary. Infelizmente eu não encontrei um site com a mesma qualidade em português, mas em geral os únicos nomes que eu não encontro nesses dois sites são os indígenas brasileiros.
Uma vez que o nome seja encontrado, como por exemplo Roger, é hora de encontrar os elementos que compõem o nome. É aí que algumas coisas precisam ser analisadas. Por exemplo, a palavra alcar “glória” (de onde sai o adjetivo alcarin “glorioso”) aparece dessa forma durante pelo menos 40 anos de desenvolvimento do Quenya por Tolkien, mas “lança” é apresentada tanto como ehtë quanto hatal por Tolkien dentro desses mesmo 40 anos. Como decidir qual usar? Consideramos que os termos são intercambiáveis? Ou por hatal ser relacionado ao verbo hat- “lançar” (que só apareceu no Qenya Lexicon em 1915) trata-se de lanças próprias para arremessar? Seria ehtë um termo próprio para lanças longas, como o pique?
Uma vez que você encontrou os elementos, é só juntá-los da melhor forma possível. Alcarinehtë é uma excelente tradução para Rogéria. Para transformar em um nome masculino, eu substituí o -ë por -on. No livro impresso do Curso de Quenya há um apêndice que trata sobre prefixos e sufixos, inclusive os masculinos e femininos; o apêndice é baseado nesta página da Ardalambion, que infelizmente temos acesso somente em inglês, já que a versão em português do site não retornou depois da perda dos HDDs do servidor.
Uma vez que o nome em Quenya foi feito, eu passo para o Sindarin. Geralmente (não sempre) os cognatos são fáceis de encontrar no dicionário Hiswelóke, ou são mais fáceis de criar. A criação de um elemento faltando é um assunto muito longo para que possamos cobrir aqui, mas as vezes é necessário se você quiser obter qualquer resultado. Algumas vezes, contudo, o contrário acontece: o elemento existe em Sindarin, mas não em Quenya. Se for o caso, o artigo The Evolution from Primitive Elvish to Quenya (PDF) na Ardalambion é o mais indicado.
Uma nota importante sobre o Sindarin é que, normalmente, o segundo elemento de um composto (a junção de duas palavras) sofre mutação consonantal suave, a famosa lenição. É importante ler o Curso de Sindarin para compreender como essa mutação funciona.
Outra abordagem
A minha abordagem, descrita acima e que utilizei nas minhas traduções quando criei o site, é extremamente rudimentar comparada com a abordagem de Roman Rausch, em seu Systematic approach to Elvish name translations. Rausch decantou o processo de tradução do próprio Tolkien e percebeu alguns fatores-chave:
- “Deus” nunca é traduzido para Eru, mas sim para Vala, pois na Terra-média o nome de Deus era muito sagrado para ser banalizado. Por exemplo, em Gabriel o elemento ‘el obviamente refere-se a YHVH (Yahweh), mas é etimologicamente conectado a elohim, que também pode ser utilizado de forma geral para vários deuses (como os egípcios, em Êxodo 12:12). Rausch provavelmente utilizaria Vala, evitando Eru, na composição de um nome.
- Tolkien não utilizava desinência agental nas suas traduções. P.ex. Eldavel ao invés de **Eldaveldo.
- O Professor também não utilizava sempre o substantivo inteiro. Em Eldakan, a raiz KAN- é sufixada, mas não o substantivo káne (na grafia do SdA, Eldacan e cánë respectivamente).
- Rausch sugere a substituição de nomes de deuses germânicos para os Valar correspondentes. Odin sendo Manwë, Thor sendo Tulkas e assim por diante.
Há no artigo diversos exemplos de raízes germânicas traduzidas. Utilizando-as como guia, a tradução para “Ricardo” seria Q. Taryaher ou Taryacáno, S. Tarhir ou Targon. “Eduardo”, que eu traduzi para o Q. Almarvarno, S. Galuverior, seria Q. Herentir e S. Herendir. “Gabriel” seria Q. Valaner e S. Balandir.
Parma Eldalamberon 14 e 18 disponíveis
O Parma Eldalamberon, a publicação de línguas tolkienianas mais antiga ainda em circulação, lançou a sua edição 18 em novembro do ano passado e eu, ocupado com o trabalho, não fiz nenhuma menção dele aqui. Contudo, você ainda pode comprar a edição por 35 dólares (inclui postagem e frete para o Brasil) no site.
O Parma Eldalamberon 18 traz o Tengwesta Qenderinwa, uma gramática do quendiano primitivo feita na década de 1930, contemporânea às Etimologias. Tolkien fez revisões dessa gramática até a década de 1950, atualizando com o conteúdo que surgia enquanto ele compunha O Senhor dos Anéis. Também no PE18 está a segunda parte de um documento sobre os alfabetos fëanorianos, cuja primeira parte foi publicada no PE17, junto com “Palavras, Passagens e Frases d’O Senhor dos Anéis“. A edição 17 também custa 35 dólares e está disponível.
Já o Parma Eldalamberon 14, que estava há muito tempo fora de circulação, está sendo reimpresso com todas as correções requisitadas pelos leitores e deve estar disponível, segundo o site da publicação, no dia 8 de fevereiro, ou seja, na próxima segunda-feira. O preço dessa edição é 30 dólares, postagem e frete inclusos. Essa edição possui fragmentos e a gramática do Qenya das décadas de 1910-20, assim como informações sobre a escrita valmárica.
“Respeitar” em Quenya
Um post de Grant Hicks na Elfling com uma boa sugestão para celebrar o aniversário do Professor.
Eu acho que a Tuilinde fez uma boa observação. O significado que nós damos à palavra “respeito” em inglês não necessariamente segue as raízes (literalmente “olhar para trás para”) mas depende dos desenvolvimentos semânticos pós-clássicos nas línguas românicas. Não há uma razão particular para esperar que o mesmo desenvolvimento aconteceria na história do Quenya, e portanto nenhuma razão para o leitor do neo-Quenya interpretar uma palavra nada familiar que significa etimologicamente “olhar para trás” com o sentido de “ter em alta estima”.
Pode ser mais seguro, do ponto de vista da compreensão, tentar construir uma palavra ou frase de elementos significando “considerar de alto valor”, embora devido às falhas no léxico do Quenya eu percebi que é mais difícil do que parece. Eu brinquei com algo do estilo de arnot- (v.), arnótië (n.) dos elementos #ar-, “alto (i.e., nobre, reverenciado)”, e not-, “contar, reconhecer” (definições do léxico de Helge Fauskanger), mas não tenho certeza de como isso parece para um Quenyanista com experiência. Até onde eu saiba pode soar tão opaco quanto uma palavra significando “olhar para trás”.
Isso faz algum sentido?
Versão HTML das listas de palavras do Quenya disponível
Há alguns dias atrás foi adicionado no site Ardalambion uma versão em HTML da lista de palavras Quenya-inglês criada por Helge Fauskanger. A lista é de autoria de “Palatinus”, uma pessoa que eu sinceramente não conhecia até agora.
Arda Philology 2
A Omentielva Nelya aconteceu no início deste mês e, com ele, o lançamento do volume 2 do Arda Philology, que contém os ensaios apresentados pelos participantes da conferência em 2007. Ele está a venda no site da Omentielva por 180 coroas suecas, mais ou menos 50 reais incluindo postagens.
Contudo — e não sei se isso foi intencional ou não — os dois volumes podem ser lidos na íntegra pelo Google Books! Por conta disso, vocês podem ler os volumes nos iframes abaixo.
A próxima Omentielva será dos dias 11 a 14 de agosto de 2009, em Valência, na Espanha.
A origem da conjunção “e”
Eu sou um tanto viciado em línguas élficas e não imaginava que poderia haver tanto para falar sobre a conjunção “e”, mas Thorsten Renk conseguiu fazer um belo resumo do que é necessário saber sobre a história da evolução dessa palavra em Quenya e Sindarin.
Usando o possessivo como meio para associar um substantivo ao outro
Na discussão sobre a qual fiz alusão em um post anterior surgiu uma bela ferramenta para quem ainda está tendo problemas em compreender o caso possessivo-adjetivo na forma de uma dica do Thorsten Renk:
Tente traduzir o possessivo como “associado com” — então lambe Eldaiva é “a língua associada com os elfos”, Taurë Huinéva é “a floresta associada com as trevas”, Nurtalë Valinóreva é “o ocultamento associado a Valinor” e laman Ranaewendeva é “o animal associado com Ranaewen”…
Você pode ver mais sobre o caso possessivo-adjetivo no Curso de Quenya e uma breve passagem no meu resumo.

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