Arquivo mensais:julho 2008

Qual a confiança que devemos ter nos cursos?

Eu recebi a seguinte pergunta do usuário Fëaléron do Fórum Valinor (verbatim):

Olá, Rodrigo.
Nas minhas andanças pelo fórum não pude deixar de notar sua forte atuação no que diz respeito aos idiomas élficos, o que me levou a acessar Tolkien e o Élfico.
Lá vi um artigo (Nova versão do Quetin i Lambe Eldaiva no forno). Fiquei um pouco assustado pois há pouco adquiri um exemplar do Curso de Quenya, einiciei meus estudos. O curso em desenvolvimento por Thorsten Renk invalida o de Helge Fauskanger? Ou este está ultrapassado? Gostaria de saber pois não tem sentido eu estudar regras que não estariam mais em vigência.

Desculpe-me incomodar, mas é que o meu maior interesse nesse fórum é explorar os idiomas tolkienianos.

Obrigado pela atenção.

Regras?!

Pergunta: “Qual o sentido em estudar regras que não estariam mais em vigência?”
Resposta:
Quais regras?! Não há regras!”

Neste momento eu gostaria de remeter o leitor ao post Elfling: Qualidade do élfico dos filmes do SdA (Parte 2) onde citei Bill Welden:

Tolkien não tinha uma gramática de Quenya. Sou eu que preciso dizer isto? Tolkien não tinha uma gramática de Quenya. […] [E]le tinha permissão para modificá-la, e isto é aparente em seu trabalho.

Então o que é um Curso de Quenya?

Do ponto de vista de um acadêmico, é uma introdução ao Quenya. Você pode aprender de forma muito mais rápida e simples coisas como o aoristo, os casos e outras funções gramaticais típicas do Quenya, para depois seguir com seus estudos através de fontes primárias (textos originais de Tolkien).

Do ponto de vista de um compositor, é um conjunto de regras estipuladas por um fã sobre o qual você pode criar composições em Neo-Quenya mais compreensíveis a outros entusiastas. O fã escolhe as funções gramaticais e o vocabulário padrão através de regras de precedência ou de forma totalmente arbitrária, e quem estiver disposto a utilizar aquele Neo-Quenya está livre para fazê-lo.

Uma resposta direta a todas as perguntas

Pergunta: O Curso do Thorsten invalida o do Helge?
Resposta: Não. É uma questão de escolha.

Pergunta: O Curso do Helge está ultrapassado?
Resposta: Para os padrões delimitados pelo Helge, ele está sim. O tradutor brasileiro Gabriel Brum está esperando o último quarto da nova versão do curso, que ainda está sendo escrita pelo Helge, para que uma segunda edição do livro impresso seja feita.

Pergunta: Há sentido em estudar o Curso do Helge, mesmo que o autor o dê por ultrapassado?
Resposta: Enquanto uma versão oficial nova de algum curso não está disponível com atualizações completas, sim, faz muito sentido. Poucos conceitos são modificados de versão para versão (eu mesmo já passei por uma ou duas versões do CdQ durante meus estudos).

Mas eu quero fazer perfeito!

Meus caros, lembrem que perfeição não existe, nem no que deveria ser perfeito. Eu já vi gente apontando irregularidades em verbos do esperanto! Para uma língua que deveria ser perfeitamente regular, irregularidades são aberrações. E no caso das línguas élficas, o próprio Professor imbutiu irregularidades aleatórias: ele não queria que fossem perfeitas! Quando começamos a dizer “ok, agora eu sei como fazer um pretérito”, vem um novo dado em uma nova publicação, ou vários dados antigos conflitantes, que destróem nossa teoria anterior.

Lembrem também que Tolkien trabalhou em cima de suas línguas desde jovem, e o Quenya em si só começou a ser criado quando o Professor tinha aproximadamente 20 anos. Foram 60 anos de aperfeiçoamentos só nesta língua. Não seja afobado, meu caro visitante, em querer compreender tudo o que é necessário em 6 meses ou algo do tipo.

Ademais, daqui há 1 ano ou 2 teremos mais uma publicação que trará mais uma formação inédita com uma função gramatical única que, se considerarmos o padrão de “o exemplo mais tardio é o melhor”, acabará jogando mais um pedaço do nosso neo-élfico atual no lixo. E você vai ter de aprender novamente essa parcela do seu neo-élfico. E a sua segunda edição do Curso de Quenya vai se tornar ultrapassada! É possível postergar o aprendizado do Quenya em 20 anos e ainda assim ter de lidar com a obsolescência dos dados. Por que deixar para mais tarde então?

Ordem das palavras em Quenya

Uma informação que estava perdida na minha lista de coisas a postar: como ordenar as palavras de uma frase comum em Quenya?

Helge Fauskanger há um mês atrás citou Tolkien em PE17:72:

[A] ordem normal em Quenya foi verbo primeiro, sujeito, objeto direto, objeto indireto […] mas a ordem clássica e normal [tardia] era expressada em sujeito, verbo, objeto.

Traduzindo:

  • Antes era: Verbo, sujeito, objeto direto, objeto indireto (e.g. Túve nauco malta araneryan. “Encontrou o/um anão ouro para seu rei”)
  • Depois virou: Sujeito, verbo, objeto (e.g. Nauco túve malta araneryan.)

Lembrando sempre que, sendo o PE17:72 anotações da década de 1950, não temos certeza se esse conceito continuou firme até 1973. Só uma análise dos textos criados por Tolkien no Quenya tardio poderia elucidar isto (e só para deixar as coisas mais “simples”, a maior parte desses textos é poesia).

Nova versão do Quetin i Lambe Eldaiva no forno

Thorsten Renk anunciou na lista Elfling que está trabalhando na nova versão do seu curso de Quenya, o Quetin i Lambe Eldaiva.

Caso você esteja interessado em ajudar procurando por erros, ou coisas que poderiam melhorar, você pode baixar a versão beta aqui.

É importante frisar que a versão final deve sair apenas daqui há alguns meses! Nenhum novato deveria utilizar esta versão para aprender o Quenya. (Ou qualquer uma, do jeito que elas estão desatualizadas; aprenda o Sindarin primeiro!)

Para sugestões e correções, registrem-se no fórum do Thorsten, que possui uma área para postagem em inglês.

EDIÇÃO EM 11/01/2021: A versão finalizada do curso pode ser encontrada sempre neste link.

Raízes consonantais em -r

O estudioso norueguês Helge Fauskanger traz uma teoria interessante sobre o pretérito de raízes que terminam em -r:

PE17:168 permite um novo insight em uma das classes de verbos.

Tolkien lista alí a raiz SRIS, significando “neve”, da qual o presente hríza “está nevando” deriva (Quenya exílico *hríra). Então ele dá o pretérito como hrinse, ou o mais tardio hrisse (o editor não tem muita certeza sobre essa última forma, mas ela faz sentido fonologicamente).

Isto tem suas implicações para o verbo hlar- “ouvir”, que supostamente vem da raiz SLAS. Eu anteriormente presumi que o pretérito seria simplesmente hlazne > hlarne, e esta é a forma que o primitivo *slasne resultaria em Quenya […] Mas se os verbos primários terminando no S original recebessem a infixação nasal antes desse “S”, ao invés de receber a desinência fraca simples ne depois dele, a combinação resultante ns produziria o Quenya ss. […]

Talvez nós devamos distingüir três subgrupos de raízes consonantais em -r:

  1. Aquelas onde o R era original: car- “fazer” da raiz KAR, tir- “observar” de TIR e assim por diante. Aqui o pretérito parece ser formado simplesmente ao adicionar -ne (relativamente bem atestado: carne “fez”, merne “desejou”, querne “virou”, tarne “pôs-se de pé” tirne “observou”, turne “controlou”).
  2. Aquelas onde o R vem do D original (via Z), onde a consoante original é preservada seguindo o infixo nasal no pretérito: rer- “colher”, pret. rende porque a raiz é RED (Etymologies), yor- “confinar”, pret. yonde porque a raiz é YOD (PE17:43). Presumivelmente os verbos hyar- “rachar”, nir- “pressionar” e ser- “descansar” também pertemcem a esta classe (raízes SYAD, NID, SED), embora Tolkien não tenha mencionado suas formas no pretérito.
  3. Aqueles onde o R vem do S original (novamente via Z). Estes seriam *hrir- “neve” (apenas atestada na forma arcaica *hirz-), pret. hrisse para *srinse, e então talvez também hlar- “ouvir”, pret. hlasse (para *slanse).

O alemão Thorsten Renk sugere que sejam contabilizados os exemplos com alongamento de vogal:

  • #ohtakar- “fazer guerra” pret. ohtakáre (SD:246)
  • yor- “confinar” pret. yóre (PE17:43)

O fato que ambos †yonde e yóre são dados como pretéritos em PE17:43, e que yonde é marcado como “poético ou arcaico” é interessante, porque aponta para que yóre seja o pretérito por analogia — mas analogia com o quê? Alguém poderia imaginar que há um grande número de exemplos de verbos em -r para os quais o alongamento das vogais era normal — possivelmente os cuja raiz já possuía -r. E isto vai perfeitamente de encontro ao pretérito cáre (PE17 tem mais alguns outros pretéritos com alongamento de vogal na raiz, mas nesta fonte em particular Tolkien cita o pretérito como carne (PE17:144). Contudo, ambos podem ter coexistido).

Helge replicou hoje ao e-mail de Thorsten:

Essa maneira de formar o pretérito […] foi atestada primeiramente em unduláve no Namárië. […] Eu tradicionalmente presumi que seu papel no Quenya do estilo do SdA era bem limitado, mas há realmente evidências se acumulando de que ela ainda era proeminente, e eu venho revisando meus conteúdos de acordo.

Alguns exemplos citados por Helge durante seu e-mail foram:

  • tul- “vir”, pret. túle (sem fonte, mas ao dizer que era antiga eu imagino o Qenya Lexicon);
  • mel- “amar”, pret. méle (QL:60);
  • mol- “trabalhar”, pret. móle (PE17:115);
  • yam- “gritar”, pret. yáme (QL:105);
  • sam- “ter”, pret. sáme (PE17:173).

Não é exatamente a mesma língua

Há quase um mês, houveram duas grandes discussões na Elfling, uma delas envolvendo, como não poderia deixar de ser, Helge Fauskanger e a Equipe Editorial. A discussão em si não é o assunto deste post, mas sim uma mensagem do estudioso americano Carl Hostetter.

Resumindo, o Helge desafiou qualquer um a mostrar onde três frases em neo-Quenya demonstram não ser da mesma língua inventada por Tolkien. As frases sendo:

  1. I Elda lende i ciryanna “O elfo foi para o navio”.
  2. Andanéya i Naucor hirner malta i orontissen “há muito tempo atrás os Anões acharam ouro nas montanhas.
  3. Cenuval nér nóra i taurello i ostonna “Você verá um homem correr da floresta para a cidade”.

Hostetter aceitou o desafio, analisando essas frases da seguinte forma:

I Elda lende i ciryanna “o Elfo foi para o navio” [N.T. ing. “the Elf went to the ship”]: Aqui e em cada uma dessas sentenças, o uso do artigo definido segue precisamente o original em inglês. As composições em Quenya de Tolkien obviamente não o fazem, e de fato o usam um tanto menos que o inglês. Portanto, de partida essas sentenças revelam o uso da sintaxe inglesa, ao invés da do Quenya, neste ponto.

Andanéya i Naucor hirner malta i orontissen “long ago the Dwarves found gold in the mountains” [“há muito tempo os Anões encontraram ouro nas montanhas”]: Primeiro, (i) Naucor significa “(os) Anões (em geral ou sob discussão)”, não “os Anões como um povo”, como é requerido neste contexto. Então o coletivo Naukalie deveria ser utilizado, e o uso indiscriminado de Naucor aqui demarca esta sentença como sendo derivada do inglês. Segundo, até onde eu lembre, o caso locativo sempre indica “at” ou “on” (até na tradução de Tolkien, onde a língua inglesa utilizaria “in”, o sentido não é “inside”, mas “upon”: e.g. súmaryasse “in her (the ship’s) bosom” [“em seu (do navio) seio”] não significa inside, mas on;¹ enquanto ear-kelumessen não significa inside, i.e. immersed in the sea, mas sim upon). Ao invés disso, “inside” e “within” são sempre expressos com preposições, geralmente com mi.² Este é o sentido aqui, e então por isto apenas esta tradução é reconhecível como um Quenya provavelmente incorreto. (Eu gostaria também de perguntar por que hir- deveria formar seu pretérito com -ne, e não com um pretérito forte (*híre)? KHIR- parece ser um verbo básico. Além disso, por que não tuv-, que em seu uso atestado parece ser mais próximo em significado do que o uso atestado de hir-?

¹ Note que esta expressão vem provavelmente de Beowulf, linha 35: “on bearm scipes, onde a expressão literal“on (the) bosom of (the) ship”. Até hoje, embora o idioma inglês necessite de “in one’s bosom”, quando nós dizemos isto não necessariamente queremos dar o sentido de dentro do seio de alguém, ou todos os bebês “in its mother’s bosom” estariam fisicamente dentro do tórax da mãe!

² Um possível contra-exemplo, símaryassen “in their imaginations” [port. “em suas imaginações”] notavelmente se refere a uma entidade não-física, não à localização física, e então apesar do fato que o idioma inglês requer “in” para soar natural, isto não indica necessariamente que o idioma élfico tinha a mesma interioridade física que o inglês; pode ser literalmente passada como “(up)on” their imaginations. Note o inglês “on my mind” do que está ocupando (residindo dentro [ou seja, “in”] dos pensamentos de alguém.

Cenuval nér nóra i taurello i ostonna “You will see a man run from the forest to the city”. Eu noto que com exceção da primeira pessoa do singular -n, não há excemplos de desinências pronominais curtas no final de verbos no futuro (ao invés disso nós temos -lye, -nte); então cenuval aqui se mostra possivelmente incorreto.

“Sistema Pronominal do Quenya” atualizado na Parma Tyelpelassiva

O estudioso alemão Thorsten Renk revisou seu artigo sobre o sistema pronominal do Quenya, que pode ser acessado clicando aqui, no site Parma Tyelpelassiva.

O artigo é excelente. Ele permite ao leitor uma visão cronológica dos sistemas pronominais elaborados no Early Quenya Grammar, no Parma Eldalamberon 17, e também no Vinyar Tengwar 49, analisando quais escolhas estilísticas de Tolkien mantiveram-se firmes e fortes ao longo da evolução externa do Quenya.

Não é meu desejo traduzir artigos do Thorsten, porque esta não é minha área, e também porque a Ardalambion Brasil já tem permissão para traduzí-los, tornando desnecessário o trabalho duplicado. Mas se eu tivesse de escolher um artigo para traduzir, seria esse.

As revisões do Thorsten vêm refletindo uma mudança no tom do seu site. Ele é escritor do famoso curso de Sindarin Pedin Edhellen (publicado aqui no Brasil pela Arte & Letra), e dos não-tão-famosos curso de Quenya Quetin i lambë eldaiva e o curso de Adûnaico Ni-bitha Adûnâyê, onde ele expõe as versões “normalizadas” dessas línguas, criadas especialmente para os compositores neo-élficos. Esses cursos estão disponíveis no site dele. Já os artigos dele visam a análise dos textos de Tolkien de forma cronológica, e sem sugestões de padronização. Isto não era assim há uns 2 anos atrás, quando os artigos dele eram quase apêndices ao curso, voltados apenas à composição neo-élfica.