Arquivo mensais:setembro 2008

Quetin i Lambe Eldaiva 2.0 disponibilizado

A nova versão do Curso de Quenya do Thorsten Renk está disponível no site dele, Parma Tyelpelassiva.

Esse curso é diferente do Curso de Quenya do Helge Fauskanger em alguns pontos:

  1. Verbalmente é mais compacto. Não há explicações longas sobre as funções gramaticais, apenas o que você precisa para escrever. Se você está procurando isso mesmo, algo sucinto, o curso é para você. Caso encontre dificuldades, talvez tenha mais sorte com o curso do Fauskanger.
  2. Ensina Tengwar. Você aprende ao mesmo tempo como escrever com o alfabeto latino e com a escrita élfica.
  3. As funções gramaticais foram escolhidas a dedo. Não que eu esteja dizendo que o Fauskanger não escolheu as suas depois de uma deliberação longa, mas o Thorsten tem um sistema próprio. Se isso é bom ou ruim é outra história. Para mim apenas é importante dizer que meus resumos e meu material de apoio se aplica ao curso do Fauskanger, por ser mais acessível ao estudante brasileiro, e conflitos podem ocorrer (como no caso da 1ª pessoa do plural).

Negação em Quenya

Por Bill Welden
Texto de Tolkien ©2001 The Tolkien Trust
Publicado originalmente no jornal Vinyar Tengwar 42, pp. 32–4.
Traduzido com permissão do autor, do editor e da Tolkien Trust.

“Q. ‘sim’” – J.R.R. Tolkien, lista de vocabulário não-publicada, c. 1960 d.C.
“Q. ‘não’” – J.R.R. Tolkien, ensaio tardio não-publicado, c. 1970 d.C.
“Não peça conselhos aos elfos, pois eles dirão ao mesmo tempo não e sim” – Frodo Bolseiro, 3018 T.E.

As versões iniciais das línguas élficas tinham duas raízes distintas para a negação. Sua função distintiva é mais bem descrita no “Gnomish Lexicon” (LNG:50):

(1) il- (ul-) denota o oposto, o reverso, i.e. mais que a mera negação.
(2) u- (uv-, um-, un-) denota mera negação.

Tolkien não estava completamente satisfeito com qualquer uma dessas raízes, embora por diferentes razões. Com a raiz em √l, melhor representada pela palavra tardia , o problema era com o excesso de palavras aparentemente relacionadas, mas semanticamente distantes. Tolkien escreveu possivelmente logo após a publicação de O Senhor dos Anéis:

* Apague √ba(n) “ir”. (Para este sentido Quenya, o radical Sindarin é √men.)
** Apague √al / la “não”. Muito inadequado, al, la já têm muito o que fazer.

Substitua: Negação. Negação do Eldarin primitivo se dividia em: 1) recusa e comando negativo (futuro); e 2) negação de fato (passado e presente estabelecido).

1) √aba, ba – distinto de awa, wa “distante”
2) √u, ?ugu – originalmente expressando privação

Entre as coisas que al, la tinham “muito o que fazer” estavam os vários derivativos das bases em GAL-, como em alta “luminosidade”, alya “próspero” e alasse “alegria”. Além disso, “além” foi usada em comparação, como em “A (ná) kalima lá B, ‘A é brilhante além de B’ = ‘A é mais brilhante que B'”, de um ensaio não-publicado sobre comparação (outra palavra usada nesse papel em um momento diferente foi epe “após”).

Tendo decidido isso, Tolkien podia agora usar al, la, etc. para funções mais próximas em significado ao grupo positivo de “luminosidade”, “próspero”, “alegria”, etc. e a seguinte entrada aparece em uma lista de raízes e derivativos datada de dezembro de 1959:

√la interjeição de prazer/assentimento. Portanto Q. “sim”, possivelmente relacionado com √ala “bom”.

Esse sistema, onde as raízes negativas eram apenas √aba e √ū, persistiu por muitos anos. Então, em um ensaio muito tardio (dos últimos anos de sua vida), Tolkien revisitou essa questão:

û não servirá. Não é necessário evitar a todo custo similaridades com línguas européias conhecidas — o Eldarin foi deliberadamente desenvolvido para ser similar a elas em estilo — mas aqui a semelhança tanto com o grego ου (fon. û) ou com o não-relacionado nórdico ú, como um prefixo, é muito próxima.

ú deve permanecer, mas com o sentido de “mau, desconfortável, difícil” – similar ao IE *dus, grego dus-, germânico tuz- (tor-). Isso deixa únótima no Lamento de Galadriel correto, com o sentido de “difícil/impossível de contar” […] Mas úchebin no linnod de Gilraen não se encaixará tão bem. Deve-se presumir que o Sindarin ú era usado como um prefixo verbal e também como adjetivo, com o significado intensificado a “impossível” para que se aproximasse de uma negação. A nuance permanecerá importante. úchebin não significará “eu não guardo”, mas “eu não posso guardar”.

A solução foi reintroduzir vala como uma raiz negativa:

A alternativa sugerida lá, la, ala seria conveniente, e o fato que ela aparece no semítico não seria uma objeção. Adoto isto […] ala como um prefixo, reduzido para al- antes de uma vogal, ou por síncope quando houver contato do l com uma consoante posterior apropriada; como negação enfatizada “não”, e la não-enfatizada. A última também era usada como prefixo negativo antes de alguns adjetivos verbais […]

Essa raiz não deve formar um verbo negativo ou receber afixos pronominais, a não ser que o verbo não seja expresso. Nesse caso lanye e outras formas verbalizadas similares tornam-se equivalentes ao inglês “I don’t” ou “I’m not“, etc. […] Nota: o não expressa diferença entre tempos verbais, normalmente desnecessários: o tempo de mais um afixo pronominal é sempre aquele do verbo anterior, agora negativado.

Um rascunho prévio desse ensaio fornece vários exemplos interessantes:

la navin karitalya(s) mára “eu não lhe aconselho que você faça isso”, literalmente “eu não julgo ser bom você fazê-lo [ing. I don’t judge your doing (it) good]”. lakare “não-fazer, inação” (geral). Não fazer nada em um caso específico não é expresso por um prefixo, já que a negação normalmente é enfatizada; portanto lá karita i hamil mára alasaila (ná) “não fazer (neste caso) o que você julga bom (seria) insensato [N.T. não-sábio]”. O Quenya não precisa de verbo antes de alasaila, mas pode adicionar “é”1. O inglês normalmente diz “would be” porque a expressão toda é equivalente a “if you think this action right, it would be unwise not to take it [N.T. se você pensa que esta ação é certa, seria insensato não executá-la]” e porque é claramente um conselho que se tornará uma ação, ou não, no futuro. Se essa incerteza for enfatizada, o Quenya poderá dizer nauva “será”. Incerteza no conselho deve ser expressa de outra forma em inglês e Quenya: “not doing this would be (I think) unwise [N.T. não fazer isto seria (eu acho) insensato]”, ou “not doing this may be/prove unwise [N.T. não fazer isto pode ser/mostrar-se insensato]”; lá karitas, navin, alasaila na ou lá karitas alasaila ké nauva. […]2

Note que, embora um derivativo verbal, tais formações como lakare são substantivos e não “infinitivos”; elas não podem reger um objeto mais do que a palavra inglesa “inação”. Para expressar o conselho em termos “aoristos” gerais deve-se usar o negativo separado: alasaila ná lá kare tai mo nave (ou navilwe) mára “é insensato não fazer o que alguém julga (ou nós julguemos) bom”.3

Essas mudanças exibem um padrão comum no desenvolvimento do Quenya por Tolkien. Ele identificava uma área com a qual estava insatisfeito e então elaborava uma ou mais soluções detalhadamente, freqüentemente em um registro de autoridade; embora o conceito completo pudesse ser rejeitado na página seguinte.

Na verdade, as línguas élficas estavam continuamente em fluxo enquanto Tolkien tentava uma abordagem atrás da outra para solucionar as dúzias de problemas que elas apresentavam. É possível imaginar que, como seu alter-ego Cisco, Tolkien achava suas línguas sempre tanto “completamente insatisfatórias e, ainda assim, muito adoráveis”; sempre prendendo sua atenção, porém sempre inacabadas. Assim, a questão sobre se uma palavra ou construção gramatical era “Quenya correto” torna-se, paradoxalmente, mais incerta quanto mais aprendemos sobre como Tolkien trabalhava.

Os elfos, é claro, têm a resposta; mas como agora sabemos, elas podem ser bem concisas e ainda dizer tanto “sim” quanto “não”.


1 A palavra original para “julgar” em todos esses exemplos era neme, corrigida para hame e finalmente para nave em todos os casos exceto este. Uma nota marginal fornece √ndab“julgar”.

2 A palavra ke é uma partícula que indica incerteza. Em outro lugar neste documento ela foi corrigida para “kwí (ou kwíta)”.

3 No final da página Tolkien adicionou “mo pronome pessoal indefinido ‘alguém’ ; ma pronome pessoal neutro ‘algo, uma coisa'”.

Nota do tradutor: Gostaria de deixar um agradecimento especial ao Gabriel Brum pela revisão.

Algumas palavras interessantes do PE17

Estou em casa doente hoje e resolvi dar uma olhada na lista de palavras do PE17 lançada pelo Petri Tikka, que mencionei na última mensagem. Algumas delas me chamaram a atenção:

  • Alamen é uma nova despedida. Alámen é o imperativo dela, e tem o mesmo sentido de namárië.
  • Alla! é uma saudação do tipo “salve!” ou “bem-vindo!” O nosso velho conhecido Aiya! é de uso exclusivo quando estamos nos dirigindo “a grandes pessoas ou seres santos como os Valar, ou a Eärendil”.
  • Arta é o advérbio “etcetera”!
  • “Espada de duas mãos”, meus caros RPGistas, é atamaite macil.
  • Possivelmente o cognato do Sindarin Elrond em Quenya é Elerondo.
  • Hruo é “troll”.
  • “Jornada” é lenda? Influência do espanhol aqui?
  • Lindimaitar é “compositor (de músicas)”. Nyarnamaitar “escritor (de contos épicos)”. Ondomaitar “escultor (em pedra)”. Ontamo “maçon”.
  • Lúnaturco é o cognato em Quenya de Barad-dûr? Esta eu não esperava!
  • #Sam- “ter”. Pen- “não ter”. Interessante esse uso dos verbos.
  • Pia “pequeno” parece ser uma opção muito melhor para compostos do que pitya.

Palavras do PE17 e A Finlandecização (hein?) do Quenya

Petri Tikka enviou uma notificação à lista Elfling no último dia 31 avisando sobre duas novidades em seu site, Men Eldalambínen:

  • Lista de palavras do Parma Eldalamberon 17: Tikka já contribui para a lista de palavras do Helge Fauskanger há algum tempo, e essa é a primeira vez que ele lança uma parcela dessa lista separadamente. Ela contém (quase) todas as palavras contidas no PE17 sobre Quenya e é considerada “finalizada” pelo autor. Compositores, verifiquem as duas listas antes de escrever qualquer palavra!
  • A Finlandecização do Quenya: Foi um artigo escrito por Tikka para a conferência Omentielva Minya, e publicado no volume 1 do Arda Philology. O nome original é The Finnicization of Quenya, que espero ter traduzido corretamente. Petri é finlandês, e é uma das autoridades sobre o relacionamento entre o Quenya e a língua finlandesa. O artigo defende que o Quenya teria, mesmo em sua forma mais tardia, uma influência do finlandês mais forte do que aparenta a primeira vista. Em contraste, leia o artigo “São os elfos fino-úgricos?” do também finlandês Harri Perälä, que sugere que essa influência decresceu ao longo dos anos até ser quase nula no Quenya tardio.
Se vocês estavam preocupados em não ter o que ler sobre as línguas de Tolkien, acabaram de achar sarna para se coçar! 🙂